Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

De polegares levantados pelo caminho foi assim que muitos chegaram a Lousada para o Festival da Boleia. Vêm de várias cidades portuguesas, mas também de diferentes países como Alemanha, Brasil e França – sempre que possível, à boleia com desconhecidos ou amigos.

São jovens que trazem os amigos ou apenas o seu cão, mas também famílias com crianças e adultos que se instalaram nos últimos dias no Parque de Merendas e Lazer do Ameal, em Cernadelo, Lousada. Têm em comum a ideia de partilha e comunidade, o gosto por viajar e a vontade de se auto-conhecerem e também de conhecerem pessoas. Trazem com eles a tenda para dormir e roupa, mas principalmente, uma mente aberta.

O ambiente é de descontracção, respira-se Natureza e liberdade e realizam-se workshops sobre várias temáticas, que vão desde o auto-conhecimento ao activismo, e também concertos, à noite. As preocupações ficaram à entrada do parque e não se vêem telemóveis.

O festival decorre desde o dia 31 e Julho e vai terminar no próximo domingo, mas para a maior parte que se encontra no recinto a experiência não se fica por esses dias. Muitos vieram antes para ajudarem a construir todas as estruturas, feitas a partir de materiais reciclados, que dão forma a este evento.

Francisco Pedro, um dos fundadores, conta que estão no recinto há cerca de um mês para preparar tudo e que têm tido “muita ajuda, felizmente”, quer dos escuteiros de Macieira, quer dos carpinteiros da Câmara Municipal de Lousada e até mesmo de “pessoas que vão aparecendo e que, por alguma razão, se sentem chamadas por isto e dão o seu contributo”.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Para a parte do evento em que era preciso algum investimento, como as colunas de som, a organização do festival decidiu organizar uma campanha de crowdfunding na internet, que se revelou um “sucesso”. “Como é uma coisa comunitária, em que toda a gente é convidada a participar e ajudar, também o financiamento achámos que podia ser. Então, pedimos a todas as pessoas, cada um deu um bocadinho e conseguimos fazer isto”, revela.

A entrada é livre, ficando depois ao critério de cada um a entrega de um donativo.

À volta de uma mesa repleta de ferramentas, estão Rui Amorim, Diogo Machado e Francisca Vilaça. Ali é onde se constroem e reparam coisas com a ajuda de todos e é o local de trabalho dos “Artist Monkey’s”, que são a equipa que ajuda na decoração do festival, elaborando, por exemplo, as placas de sinalização ao longo do recinto e a casa-de-banho seca.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

“Os macacos estão no festival porque estão associados à boleia, à viagem. Uma mente macaca, criativa, sempre a pensar, a catar ideias uns aos outros”, explica Francisca Vilaça, coordenadora artística desta equipa, referindo que são como a mascote do evento. É de Baião, mas vive em Gaia e conta que veio até ao festival de boleia acompanhada pelo seu cão.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Já Rui Amorim, que é da Póvoa de Varzim, veio de outro festival e trouxe a mulher e as duas filhas, de dois e quatro anos. “Gosto deste conceito de festival, não só da parte da arte, mas o conceito de estar em comunhão com as pessoas, com a natureza, tudo de forma mais sustentável, ecológica, simples da vida”, confessa. Quanto às filhas, diz que estão “integradas” também neste espírito, passam o dia a ir ao rio e depois vão para a manta, o que é “muito melhor do que estar dentro de apartamentos fechadas”.

Para Diogo Machado, o motivo que o trouxe ao local foi poder estar “sossegado” e usufruir de “um festival em que se possa acrescentar aquilo que se traz, além da possibilidade de abertura que estes encontros dão”. Veio do Porto com a sua cadela e revela que, apesar de não costumar andar à boleia, participa em vários festivais do género.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Uma história diferente tem Ricardo Silva, um dos voluntários do ponto de informação colocado à entrada, que veio com amigos de um pouco mais longe: Santa Maria da Feira. “Estava a precisar de sair assim um pouco, tinha acabado de fazer a minha dissertação em Coimbra e, justamente quando estava a terminar, abria este festival e uma amiga minha vinha e então, a convite dela, achei que seria bom”, conta, referindo que há um ano também ajudou a organizar um festival semelhante na República Checa.

“Estou a gostar bastante. Está a dar-me uma visualização muito grande de muita gente que vive de maneiras que normalmente não se vêem. Vês pessoas de muitos sítios que têm histórias incríveis e partilhas algumas coisas da ideologia delas e outras não. É um pouco como quebrar resistências”, acrescenta.

Diz ser novo nestas andanças, já que só tinha viajado à boleia em distâncias curtas quando esteve na Turquia, por isso, quer aprender mais. Coloca em cima da mesa a hipótese de sair deste evento e seguir para o Algarve de “polegares ao ar”.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Quem arrisca nestas experiências tem sempre histórias para contar e que o diga Pierre Vrnt, natural de França, mas a viver actualmente no Camboja. Numa das vezes em que pedia boleia em França, quem parou foi o condutor de um Porsche, que não só o levou durante quase sete horas de percurso, como também o deixou conduzir durante a noite. “Foi uma boleia mesmo fixe. Adorei”, exclama.

Apesar de já conseguir falar e entender algumas ideias em português, revela que é a primeira vez que está no país e que está a adorar a língua, o clima e as pessoas que são “simpáticas”. “Gosto do espírito aqui, é super pacífico e alegre”, continua. Chegou a Lousada depois de ter andado de autocarro e apanhado “três ou quatro boleias”, demorando cerca de três semanas.

Este jovem francês teve conhecimento do evento através do Facebook e não pensou duas vezes antes de vir. Conta que já tinha viajado com um dos organizadores há quatro anos até à África do Sul. “Estou só a conhecer algumas pessoas livres, criativas e espiritualmente abertas”, sublinha, referindo que vai levar com ele “apenas o sorriso e os souvenirs”, o que é “suficiente”. “Se eu puder aprender no processo será óptimo”, remata.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

“Percebemos que o acto de viajar à boleia, pedir a estranhos que partilhem o seu carro connosco e viajar desta forma toca em muitos temas diferentes ao mesmo tempo. É uma forma de nos deslocarmos no mundo de forma mais ecológica”, explica Francisco Pedro. Veio de Lisboa e refere que viaja sempre desta forma “para todo o lado” e que cada história e pessoa que vai encontrando é “incrível” e “tão rica”.

A ideia de organizar estas ideologias num festival surgiu em 2017 através de quatro pessoas que nunca se tinham visto, mas que partilhavam o mesmo gosto. Um era do Marco de Canaveses, outro de Lisboa, Algarve e Coimbra, por isso, comunicavam sempre por Skype. Um deles fez a proposta de realizar um festival sobre o tema através de sites usados por viajantes e perguntou quem se queria juntar. E assim nasceu o evento.

Um dos objectivos da iniciativa, que vai na segunda edição, é “juntar pessoas muito diferentes”, “não ser só os viajantes para um lado e os activistas e os ecologistas e a população local para o outro. É preciso as pessoas misturarem-se e aprenderem umas com as outras”, conclui Francisco Pedro.