Primeiro pelas mãos do avô, que foi bombeiro durante 40 anos, depois, pelos próprios passos, toda a vida de João Pinto se cruza com a da corporação dos Bombeiros de Paço de Sousa.

Conhece o quartel e as suas necessidades como a palma das mãos. Ainda assim, não tinha ambição de chegar ao comando. Mas quando os colegas apontaram o seu nome disse presente. Tomou posse recentemente, numa cerimónia simbólica, devido à pandemia.

Entre as principais metas estão manter “o espírito de união, de equipa e de desafio” no corpo activo e dar mais condições aos soldados da paz, com mais formação, renovação das instalações e do parque de viaturas.

“A nossa infância era aqui e já brincávamos a ser bombeiros”

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

João Pinto tem 33 anos e é natural de Paço de Sousa, Penafiel. Mora a 200 metros do quartel dos bombeiros.

“Vim para cá desde muito pequeno porque o meu avô era cá bombeiro. Foi durante 40 anos. Quando tocava a sirene ele vinha na minha bicicleta e eu a pé”, recorda.

Ele ficava a brincar com os filhos de outros bombeiros e chefes. “A nossa infância era aqui e já brincávamos a ser bombeiros. Ficávamos à espera que voltassem dos incêndios para ajudarmos a abastecer. Ajudávamos a preparar sandes e a separar águas”, conta o novo comandante da corporação, que acredita que não havia forma de fugir a um destino que se vinha a traçar desde tenra idade.

“Só estava mesmo à espera de fazer 14 anos para se inscrever. Não havia outra hipótese”, garante, falando do orgulho que deu ao avô, que faleceu subitamente há cerca de quatro anos. “Ele ia ficar contente de me ver comandante”, concorda.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

Fez o ensino todo no concelho e depois licenciou-se, mas confessa que apesar de ser bom aluno não gostava da escola. “Todos os minutos eram para os bombeiros, todos os bocadinhos passados no quartel” que conhece de cor.

“Não se pode ser comandante sem bombeiros”

Bombeiro há 19 anos, fez o percurso até bombeiro de 2.ª. Foi com a saída do anterior comandante que o seu nome foi apontado como possível sucessor. “A direcção achou por bem fazer uma reunião com o corpo activo e o meu nome foi sugerido e foi a votos”, explica, confessando que não aceitou logo e ponderou.

“Não tinha ambições de ser comandante. Estou habituado a liderar equipas e estar no teatro de operações. Gosto de meter a mão na massa. Nunca me vi como comandante, não era nenhum sonho”, confessa João Pinto.

Resolveu aceitar porque tinha os bombeiros do seu lado. “Não se pode ser comandante sem bombeiros”, salienta.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

João Pinto sempre dedicou todos os minutos aos Bombeiros de Paço de Sousa. “Raro era o dia que não vinha aqui fosse à hora que fosse. Era muitas vezes o primeiro a vir quando tocava a sirene”, diz. Agora, admite que vai haver conflito entre o bombeiro que quer ir para o terreno e o homem que tem de comandar, uma realidade e nova responsabilidade à qual ainda se está a habituar.

Sob o seu comando estão 70 bombeiros. “Fui eu que os formei a todos”, afirma o também formador da Escola Nacional de Bombeiros e de uma associação certificada pelo INEM.

Um corpo activo jovem que não quer perder a sabedoria dos mais velhos

O novo comandante não vem à procura de rupturas. Quer antes “manter o espírito de união, de equipa e de desafio” e dar mais condições aos soldados da paz. O quartel, com alguns anos, precisa de ser reformulado e também é necessário melhorar o parque operacional e de viaturas. Actualmente, têm 35 ao serviço, mas alguns têm mais de 20 anos: “É preciso renovar e sei que podemos contar com a direcção”.

“Quero apostar ainda mais na formação e dar mais e melhores competências e cursos actualizados. Gostava de ter aqui um centro de treinos e formação, mas isso já é um projecto a longo prazo”, adianta João Pinto.

“Temos um corpo activo muito bom e jovem, mas também temos aqui pessoas que andaram comigo ao colo e que ainda estão no activo”, descreve, falando na importância de aproveitar esse conhecimento dos mais antigos.