O homem que assobia para o lado

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A banda toca no coreto. A saga continua e nós consentimos.

O 10 de junho já não é, e ainda bem, o dia da raça. Dizem agora que é de Camões, de Portugal e das Comunidade Portuguesas.

Ao salazarento dia da raçã deu lugar o nome comprido atrás referido.

Por nós e para nós, se fosse só o dia de Camões já justificava o feriado.

Como sempre, nesta data, cumpre ao presidente da república dirigir-se aos portugueses. Se assim é, é porque o dia o justifica e o presidente tem algo a dizer ao país.

Num ano em que não conseguimos ainda sair totalmente da pandemia, nem sequer do ponto de vista económico, num ano em que, após décadas, a guerra voltou à europa, num ano em que o serviço nacional de saúde não dá provas de sair da crise em que mergulhou, num ano em que as taxas de juro aumentam, não se sabe até quanto, e num país, como Portugal, com uma dívida externa das maiores do mundo, num ano em que estamos longe de saber até onde irá a inflação, num ano em que, seguramente, os aumentos salariais ficarão longe do aumento do custo de vida, num ano que soubemos como começou, mas, vamos a meio, e ainda estamos longe de imaginar como vai acabar, o presidente da república vem falar-nos de quê?

De nós, dos portugueses, da nossa capacidade de ultrapassar o Bojador e o das Tormentas, da nossa resiliência (como se diz agora), enfim, de quem já fomos.

Ou o presidente quer preparar-nos para um futuro ainda pior do que o que já vivemos ou falou para nos entreter. Aliás, o discurso de Marcelo, pelo menos para nós, sintetiza-se na máxima popular: qualquer burro como palha. O que é preciso é saber dar-lha.

Se o 10 de junho é o dia de Portugal e até é feriado nacional, pelo menos que se lhe dê a dignidade que merece. Que se evoque e invoque Camões e que se coloque o dedo na ferida do que devem ser as nossas esperanças e os nossos medos. Falar de quem já fomos é um mero exercício de uma retórica dispensável, sobretudo nos tempos que correm.

Os portugueses, sobretudo agora, mais do que uma lição de História, precisam, querem saber do seu futuro e, sobre isso, Marcelo disse nada.

A propósito, e revirando os olhos pelo que se passa cá no burgo, em Paredes, não lembra ao diabo assinalar o dia do bombeiro no dia de Portugal.

O 10 de junho, para além de ser feriado nacional, para além de ser o dia em que se celebra o país, não pode nem deve ser confundido com outras celebrações. E os bombeiros também devem ter o seu próprio dia, mas que não se confunda com o Dia de Portugal.

Celebrar o Dia do Bombeiro no dia de Portugal é como celebrar a Páscoa no Natal.

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