Elsa Moreira e Vasco Pereira
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A Elsa, o Vasco e o Bruno são de Paredes e, para além de terem nascido no mesmo concelho, têm algo mais em comum: o amor ao desporto. Este fim-de-semana foram três dos mais de 600 atletas portadores de deficiência mental ou incapacidade intelectual que participaram nos Jogos de Inverno ANDDI – Associação Nacional de Desporto para Desenvolvimento Intelectual. Considerado um dos maiores eventos de desporto inclusivo realizado em Portugal, este jogos incluem modalidades como o ténis de mesa, o boccia, andebol e futsal, a natação adaptada entre muitos outros.

O Pavilhão Rota dos Móveis, em Lordelo, foi um dos palcos deste evento que tem na sua essência o projeto do município “Paredes sem paredes”. E ali, em campo, todos são iguais, porque sentem, riem, vibram com os resultados desportivos e, acima de tudo, sentem-se integrados num mundo onde o desporto e o contacto comunitário se evidenciam.

O Verdadeiro Olhar acompanhou algumas das competições e falou com atletas. Elsa Moreira tem 30 anos e na estante da casa acumula vários títulos, como de campeã nacional e vice-campeã regional de ténis de mesa e de boccia, entre outros trofeus. Mas não são as medalhas que fazem Elsa sorrir, mas sim o facto de poder participar nesta atividades que, segundo disse, fazem com que tenha “uma vida mais feliz”. Elsa tem um ar de menina e rapidamente se percebe que é o reflexo da felicidade por poder participar nesta competição. Até porque, reconhece que se não fossem estas atividade a sua vida seria bem diferente. Surda e com paralisia cerebral, confessa a surpresa que foi descobrir que havia desporto adaptado em Paredes, tratou logo de experimentar o ténis de mesa, a natação e o boccia.

E, desde esse dia, “tudo mudou”. Elsa confidencia que tem o sonho de vestir a camisola da seleção nacional, porque para esta atleta não há muros nem paredes. Conta que treina todos os dias e quando algo não corre melhor, insiste e persiste “para melhorar, porque tem que “corrigir o que está mal”, afirmou.

Sobre estes jogos Anddi conta que “são dias de muita pressão e luta”, mas a máxima é “nunca desistir”. E quem fala com a Elsa percebe que ela assume o leme deste barco onde estão dezenas de atletas, porque é dela que saem palavras de conforto e gritos de incentivo. “Quando a equipa está mais em baixo, digo-lhes que não podem desanimar”, porque só lutando conseguimos alcançar vitórias e “levar Paredes ao topo”, sublinhou.

Quem fala com estes atletas percebe que todas estas atividades são muito importantes, até porque o seu desnvolvimento pessoal passa muito por este trabalho, pelos treinos, dando também a possibilidade à comunidade e ao mundo de desmantelarem estereótipos, porque estes miúdos ou adultos são muito mais do que um diagnóstico.

“O Desporto adaptado torna-nos muito mais felizes” – Elsa Moreira

Elsa faz questão de lembrar à comunidade de Paredes que o desporto adaptado é uma realidade no concelho e faz com que sejam “muito mais felizes”. Este projeto também se traduz na confirmação que “temos capacidades, que somos uns lutadores e nunca desistimos”.

Sempre focada em se superar, até conta que a mãe muitas vezes lhe chama “louca” pelo empenho e dedicação que dá a esta parte essencial da sua vida, o que não deixa de ser verdade, porque “sempre que há desporto eu estou lá”, disse a sorrir.

Ao lado de Elsa surge Vasco Pereira, de 39 anos, que pratica boccia, andebol, futsal e golfe. Apesar de confessar estar “um bocado nervoso”, não só pelas provas como pela entrevista, trata logo de dizer que não deita a toalha ao chão. Ao Verdadeiro Olhar conta que começou a prática desportiva adaptada em 2005, no Futebol Clube do Porto. Depois, uma lesão no joelho travou-lhe o sonho. Nessa altura, zangou-se com os treinadores e quase bateu com a porta ao desporto.

Mais tarde, e a frequentar a Obra de Assistência Social da Freguesia de Sobrosa (CACI), acabou por “ser chamado a praticar boccia e futsal”. E a verdade é que, apesar de nunca ter recuperado totalmente da lesão, não desistiu e o projeto ‘Paredes sem paredes’ trouxe-lhe tudo, “mudou a minha vida, muda a vida de todos”, garantiu.

No final da conversa com Vasco chega Bruno Ferreira. Com trissomia 21 salienta que o “convívio com amigos e colegas” faz com que se sinta feliz por participar nestes jogos. No fundo sabe que não partiu de um lugar privilegiado nesta aventura, esforça-se imenso e precisa de “muita dedicação para conseguir bons resultados”. Bruno, que não deixa de agradecer a todos os atletas e treinadores o trabalho neste competição, relata que treina todos os dias e, às vezes, o esforço até pode representar um sacrifício, mas diz que é compensador. Porquê? “Pela minha saúde e pelos meus pais” que, de certeza, sentem um “grande orgulho” quando assistem às vitórias do filho.

A acompanhar todos estes atletas está Leonel Ferreira, um dos coordenadores do projeto ‘Paredes sem paredes’ que conhece de cor a importância do desporto inclusivo que confere “autonomia e poder de decisão”, tão importante para quem tem incapacidades e precisa ultrapassar dificuldades físicas. E quando vê os “seus” atletas entrarem em campo sente “um grande orgulho” e vive as emoções deles como se fossem suas.

Autarquia quer mais pessoas a praticarem desporto

Ao Verdadeiro Olhar, o vereador do Desporto da autarquia sublinhou a importância destas competições, assim como de projetos que visem a inclusão. Paulo Silva destaca que a Câmara Municipal não pode deixar de complementar ou apoiar “todo o trabalho que é feito pelas Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS’S) do município”.

Nestas competições todos percebem as “dinâmicas” que envolvem estas pessoas com incapacidade, sendo ainda o “culminar do trabalho destas instituições”. Para Paulo Silva “estes jogos mostram o lado mais competitivo da prática desportiva” que não sendo o mais relevante, expõe que Paredes tem “cada vez mais pessoas a participarem, não só no desporto adaptado (que envolve cerca de 200 atletas), mas em todo”. E foi por essa razão que o município se candidatou à Capital Europeia do Desporto com uma proposta a evidenciar a inclusão social e a inovação.

Paulo Silva destaca ainda o facto de o município ter instalações de excelência, reunindo condições para que “todos os atletas possam treinar em Paredes” o que, efetivamente, acontece.

Desporto é o melhor veículo de inclusão

Fundada em 1990, a ANDDI-Portugal é o organismo oficial responsável por gerir o calendário competitivo nacional, garantindo que o desporto seja um direito acessível a todos. Assim, promove a inclusão e integração social.

José Costa Pereira, do comité organizador Anddi Portugal, enfatizou ao Verdadeiro Olhar que a estrutura que lidera envolve 3500 atletas, 16 modalidades e 150 instituições, onde se incluem IPSS’s, escolas e clubes. Este jogos de inverno, que este ano aconteceram em Paredes, tiveram em Bragança a primeira cidade anfitriã, em 2020.

O dirigente sublinha a importância dos projetos autárquicos que vão surgindo, como o ‘Paredes sem paredes’, onde a “inclusão se faz através do convívio e do desporto”, porque este é o “melhor e maior veículo de integração”.

E quem passou por Paredes este fim-de-semana percebeu que este trabalho feito em prol de quem é diferente estimula oportunidades e cria paridade entre todos, porque o convívio e o desporto trazem desenvolvimento e riqueza. E tudo somado é transformador. Que o digam estes atletas que nunca desistem, porque sabem que não é a condescendência que os transforma, mas a persistência que acaba por imprimir na sociedade mais autenticidade e amor.

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