
É difícil acompanhar a sociedade lituana porque eles falam lituano, mas sobretudo por causa do bloqueio da comunicação social, que evita que este simpático país contagie o resto do mundo.
Forçado a admitir alguma forma de união homossexual, o Parlamento decidiu que não tinha tempo para regulamentar o assunto e retirou-o da agenda. Talvez nunca venha a ter tempo. Pelo menos, parece ser esse o receio dos líderes da comunicação social que ignoram a Lituânia. É caso para dizer que não sabem o que perdem.
Num país que sofreu horrores sob a ditadura comunista, onde muitos cidadãos foram mortos e torturados, encontramos hoje personalidades com uma clarividência singular.
Por exemplo, a actual Secretária de Estado da Justiça, Kristina Zamarytė-Sakavičienė, católica, casada, mãe de seis filhos, conhecida pela defesa dos direitos humanos, nomeadamente o respeito pela vida, contra o aborto. Para ela, os valores familiares devem estar no centro da vida política:
— «Avalio as decisões do Estado de acordo com o princípio de que o interesse das crianças deve estar em primeiro lugar. As crianças nunca devem ser tratadas como objecto do desejo ou da conveniência dos adultos».
Os defensores da reprodução medicamente assistida e do aborto consideram intoleráveis estas declarações, mas a Secretária de Estado da Justiça não se cala. Segundo ela, a manipulação de embriões «coloca a conveniência, os desejos e os interesses dos adultos acima do direito da criança a ser concebida, a nascer e a viver. Os embriões humanos não devem ser tratados como um objecto». Os adversários concluíram que Zamarytė-Sakavičienė não tem condições para ser Secretária de Estado; inclusivamente, nenhum católico deveria ser admitido.
Esta crítica ao facto de Zamarytė-Sakavičienė ser católica levou o Arcebispo de Kaunas, Kęstutis Kėvalas, a lembrar que numa democracia, ninguém deve ser excluído do serviço público por causa das suas convicções religiosas, a discriminação dos católicos debilita a democracia. O Cardeal Sigitas Tamkevičius, S.J. (bispo emérito de Kaunas, preso muitos anos pelo regime soviético) juntou-se à defesa da Secretária de Estado, «pela sua posição cristã clara acerca da vida, da família, da sexualidade». Considerou-a inclusivamente «um exemplo inspirador», porque «não precisamos de observadores passivos, mas de quem defenda claramente os valores perenes». Curiosamente, para a Secretária de Estado, «os Governos devem promover a família natural, não por um imperativo religioso, mas por respeito da lei natural. A justiça não depende da religião de cada um; a sua essência e as obrigações da justiça não dependem das convicções religiosas. Os direitos humanos são exigências da justiça».
O feminismo radical também se queixa, porque, para a nova Secretária de Estado, respeitar a maternidade significa reconhecer o seu valor insubstituível para alimentar a vida dentro da família e na sociedade em geral. «O feminismo prometeu dar poder às mulheres e libertá-las,
mas levou muitas mulheres a procurarem a felicidade por caminhos errados. Ao desprezarem a maternidade, diminuíram o sentido da verdadeira feminidade».
A família de Kristina Zamarytė-Sakavičienė tem pouca exposição pública, mas foi ela própria quem atribuiu a sua carreira ao marido: «tenho um marido maravilhoso, um super-pai. Cuidamos um do outro e cuidamos os dois dos nossos filhos». Quanto à maternidade, não acha que seja um impedimento para defender o bem comum, classificou-a mesmo como «a melhor escola de vida» para o exercício de responsabilidades. «Afinal de contas, não é para servir as pessoas que existem todos os negócios, a ciência e a política?».
Todas as responsáveis do Ministério da Justiça lituano são mulheres. Mulheres intolerantes? Zamarytė-Sakavičienė contrapõe que a verdade moral não precisa de ser imposta, «a verdade defende-se a si própria, o nosso papel é só reconhecê-la e servi-la fielmente».










































