Verdadeiro Olhar

Márcio Ferreira e Mário Silva são da região e estão unidos pelo amor aos matrecos que os vai levar ao Campeonato Europeu de Clubes

Mário Silva, natural de Paredes, e Márcio Ferreira (à direita) vão viajar até Itália

Márcio Ferreira é natural de Paços de Ferreira e Mário Silva é de Paredes, apesar de viver em Penafiel há muitos anos. Conheceram-se através dos matraquilhos, mas a relação saltou para lá das mesas onde competiam e, hoje, além de fazerem dupla em competições, são amigos e preparam-se para participar no Campeonato Europeu de Clubes, que se vai realizar de 19 a 21 de Novembro, na cidade de Roma, em Itália.

A acompanhar os dois atleta vão ainda estar André Mendes, Filipe Parreira, Gonçalo dos Santos e Pedro Oliveira, apoiados pelo clube Rio Natura/Café do Rio.

O Verdadeiro Olhar conversou com os dois. E engane-se quem pensa que os matraquilhos fazem apenas parte da cultura do café, em que o bater dos bonecos na bola era intercalada com umas cervejas e tremoços. Márcio Ferreira é a prova disso, porque aos 33 anos contabiliza 36 títulos nacionais, nove campeonatos do mundo e milhares de quilómetros feitos para participar em provas que envolvem a modalidade, vulgarmente conhecida como ‘matrecos’.

“O meu pai tem uma paixão absurda pelos matraquilhos”

Mas este amor não surgiu do nada, mas sim do pai que, ainda hoje, com 69 anos, “tem uma paixão absurda” pelos matraquilhos. Aliás, a história dos amantes dos ‘futebolistas de mesa’ na família Ferreira já vem do tempo do avô de Márcio, que tinha um café e, ali, o pai dedicou também muitas horas à modalidade.

Por isso, o atleta de Paços de Ferreira recorda que, em miúdo, as brincadeiras que tinha, em conjunto com o irmão, andavam à volta das mesas de matrecos. Mais tarde, quando saia para jantar, por exemplo, o final da noite era sempre o mesmo, “a jogar matraquilhos” com os amigos.

Aliás, a paixão de Márcio Ferreira, que é licenciado em Direito, mas profissionalmente é vendedor de vinhos, é tão vincada que, em casa, tem “sete mesas de matraquilhos, todas diferentes, e oriundas de sete países”.

A história de Mário Silva, que tem 45 anos, e no que diz respeito a esta modalidade, não é muito diferente. Também começou a jogar “ainda miúdo”. Fugia para o café que existia ao lado de casa e dava asas ao sonho de ver os ‘seus jogadores’ marcarem os ruidosos golos.

E a paixão de ambos foi crescendo e veio a materializar-se em 2007, altura em que foi criada a Federação Portuguesa de Matraquilhos e Futebol de Mesa (FPMFM). Aí tudo de tornou mais sério e a “a dedicação tem vindo sempre a aumentar”, contou Márcio Ferreira.

Aliás o atleta de Penafiel, que a nível profissional é contabilista, recorda bem esse ano, porque foi aí que participou no primeiro campeonato nacional. E nos anos seguintes, nunca mais parou. Já contabiliza vários títulos, entre eles o de campeão do mundo, também muitas horas de dedicação e muitos quilómetros percorridos.

Há alguns anos que a federação está apostada em reformular o paradigma da modalidade e tem vindo a bater-se para que esta prática seja reconhecida como um desporto. Mas, para isso, é necessário envolver jogadores, clube e associações nos matrecos, para que estes deixem de ser associados, somente, a uma prática de cafés. E para isso, tanto Márcio Ferreira como Mário Silva têm contribuído, porque não lhes falta “força de vontade”.

Sobre o panorama dos matraquilhos em Portugal, o pacense acredita que tudo vai mudar e evoluir, mas reconhece que faz parte de uma geração que “tem que partir pedra” nesta modalidade.

A FPMFM conta, neste momento, com 400 atletas federados, entre juniores, seniores, veteranos, femininos e ainda jogadores com deficiência motora, ou seja, dependentes de cadeira de rodas.

Mário Silva também reconhece que “tudo o que tem a ver com o digital, absorve mais os jovens. Ainda assim, congratula-se com o facto de muitos cafés e bares “terem mesas de matrecos. A tradição mantém-se”.

“O mais difícil é passar ao nível seguinte, o da competição”

Por outro lado, sublinha que “toda a gente gosta de jogar”, agora o mais difícil é “passar ao nível seguinte, o da competição”. Mas é bem verdade que há crianças que se interessam pelos ‘matrecos’ e a prová-lo está o facto de o clube que representam ter “seis miúdos que já foram campeões”.

Sobre a prova para a qual se preparam, Márcio Ferreira conta que treina três a quatro vezes por semana, lamentando, no entanto, a “paragem brusca que aconteceu com a COVID”. Mas, aos poucos, “estamos a retomar as iniciativas e as competições”, algo que o pacense considera “excelente”.

Mas quais são as características que um jogador precisa de ter para dominar os bonecos de chumbo, pintados à mão? Márcio Ferreira enumera que os ingredientes necessários para não ser um ‘matreco’ a jogar matraquilhos passam pela “paixão e dedicação, aliadas à técnica e destreza”. Tudo misturado, dá um bom jogador. Agora, “o jeito nasce com cada um de nós”, Quando não se tem, “não há nada a fazer”, reconheceu.

“Eu sou melhor a defender, o Márcio é melhor ao ataque. Completamo-nos”

Instado sobre as qualidade desta dupla, Mário Silva explica que, e no seu caso, “é melhor a defender”, já Márcio Ferreira sobressai no “ataque”. Ora em ‘campo’, os dois completam-se. Mas para ‘dar bolas’ nos matrecos, não basta apenas o interesse, “é mesmo preciso ter habilidade”.

E com habilidade ou não para fazer fintas e levar os bonecos a marcarem golos, a verdade é que a prática dos matrecos em Portugal é antiga. Quem não se lembra de passar à porta de um café e ouvir, vindo de lá de dentro, um matraquear, que resultava do choque entre o boneco de chumbo, ‘vestido’ com a cor de um dos principais clubes portugueses, e a bola pesada.

Aliás, e se viajarmos ao passado, não está definido com exactidão , qual a origem dos matraquilhos. Mas terá nascido nos finais do século XIX e veio a acompanhar o futebol moderno. Só que foi o inglês Harol Searles que registou a primeira patente, decorria o ano de 1921.

Em Portugal, o interesse é cíclico, mas é bem verdade que as novas tecnologias afastaram as pessoas, na generalidade, dos jogos tradicionais.

Quem não se deixa convencer pela modernidade é Márcio Ferreira que também adora “ver filmes e séries”. “Viajar, passear pela praia, ir ao cinema e conviver” também são actividades que fazem parte do roteiro deste pacense, apesar de os ‘matercos’ estarem no topo da lista.

Já Mário Silva faz questão de frisar que gosta de viver rodeado de números e de papéis, algo que lhe absorve muito tempo, tendo em conta que o trabalho de contabilista é muito exigente. Mas nem tudo gira à volta da sua profissão e, nos intervalos, privilegia os convívios e a amizade como aquela que tem com o seu par nos matrecos.

E se há quem tenha uma “absurda paixão” pelos bonecos que se fintam na mesa e fazem um barulho único e nos fazem viajar até ao passado, Márcio e Mário são exemplo disso e já se preparam para a viagem que vão fazer a Itália, de onde esperam trazer os melhores resultados.