Criado em outubro de 2025, o projeto educativo “Abel”, idealizado pela pacense Olga Leite, está a levar ensino, dignidade e esperança a crianças internadas no Hospital David Bernardino, em Luanda, naquele que é o primeiro conceito de escola hospitalar em Angola.
A iniciativa nasceu da constatação de uma realidade dura: muitas crianças hospitalizadas ficam afastadas da escola durante longos períodos. Para responder a esse problema, Olga Leite, natural de Paços de Ferreira, decidiu criar um projeto que leva a educação até junto dos mais pequenos, transformando uma sala do hospital num espaço de aprendizagem.
À entrada, quatro palavras definem o espírito do projeto: amor, cura, alegria e paz. Lá dentro, o ambiente hospitalar dá lugar a uma sala colorida, com cartazes, desenhos e materiais pedagógicos, onde crianças de diferentes idades aprendem português, matemática e inglês, mas também música, artes plásticas e literatura.
A origem do projeto está ligada a uma história marcante. Olga Leite conheceu Abel, um menino de rua com problemas de saúde graves, e percebeu que, para além dos cuidados médicos, a educação poderia desempenhar um papel essencial na sua recuperação. Durante o internamento, ofereceu-lhe um caderno, que rapidamente foi preenchido com o abecedário. Esse momento foi decisivo.
“Percebi que, para ele, aprender era um escape e que o processo de cura também passava por aí”, explicou a responsável, em declarações à agência Lusa.
A partir dessa experiência, nasceu o projeto “Abel”, desenvolvido em parceria com Leonor Patraquim Rosa e Ana Nobre, e que hoje acolhe crianças internadas por diferentes motivos — desde tratamentos prolongados a situações de hemodiálise ou espera por cirurgia, provenientes de várias regiões de Angola.
O projeto aposta numa abordagem mais ampla do que a simples alfabetização. “O processo de cura deles passa pelo hospital, naturalmente, mas também entendemos que o amor, a educação, a cidadania, a música, a literatura e o desenho fazem parte desse processo”, afirmou Olga Leite.
Essa visão reflete-se no dia a dia das aulas. O professor Evaristo Castelo Morais, conhecido como “professor Moranguinho”, é um dos rostos do projeto. Com 25 anos, garante que o seu objetivo é facilitar o caminho das crianças e evitar que passem pelas dificuldades que ele próprio enfrentou. “A minha função é ajudar a transformar a consciência e facilitar o processo da criança”, afirmou.
Dar aulas num hospital exige também uma abordagem diferente. “Aqui não seguimos apenas um programa. É preciso perceber cada criança, ser paciente, cauteloso”, explica, acrescentando que também aprende com os alunos: “Eles ensinam-me a amar”.
O impacto do projeto é visível em várias histórias. Um dos exemplos é o de Josiel, de cinco anos, que nasceu com uma malformação e vivia isolado, sem frequentar a escola. Após integrar o “Abel”, passou a aprender, a comunicar com confiança e a demonstrar novas competências. “Hoje fala inglês, usa números e tem outra atitude”, conta a mãe, emocionada, à Lusa.
O projeto funciona sem recorrer a doações financeiras diretas. Em vez disso, conta com o apoio de parceiros que contribuem com serviços, materiais e infraestruturas. O pagamento dos professores é assegurado por entidades parceiras, enquanto os materiais escolares são enviados por escolas portuguesas e transportados gratuitamente pela TAP, através da organização TAKE CARE.
Paralelamente, está em curso um trabalho com os Ministérios da Educação e da Saúde de Angola para garantir o reconhecimento formal das aprendizagens realizadas no contexto hospitalar, permitindo que as crianças possam reintegrar o sistema de ensino após a alta.
O próximo passo passa pela criação de um programa de apadrinhamento, destinado a identificar talentos específicos — na leitura, matemática, música ou artes e a estabelecer ligações com padrinhos individuais ou institucionais que possam apoiar o desenvolvimento dessas crianças.
Para Olga Leite, o objetivo é claro: “Este projeto pode mudar o percurso de vida de muitas crianças”.
No Hospital David Bernardino, a escola tornou-se mais do que um espaço de ensino. É um lugar onde, entre tratamentos e cirurgias, as crianças voltam a ser simplesmente crianças e onde aprender faz parte da cura.
Notícia da Agência Lusa.










































