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  por: Roberto Bessa Moreira  
Sem rede de fibra óptica, acesso à internet é praticamente impossível no Vale do Sousa
Escolas sem condições para utilizar computadores portáteis dados pelo Governo
A chegada dos computadores portáteis às escolas da região estão a paralisar as redes de internet dos estabelecimentos de ensino. Isto porque o Governo ainda não equipou, tal como havia prometido no âmbito do Plano Tecnológico da Educação, as escolas com fibra óptica, o que leva a que velocidade da internet não ultrapasse os 800 Kbps.

 

A incapacidade de resposta da rede de internet é tal que alguns conselhos executivos decidiram impedir o acesso dos alunos à rede sem fios da escola.

Os que não tomaram esta medida têm de, como no caso de Nevogilde, desligar a rede da escola para que 14 alunos possam fazer um teste na disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).

Governo prometeu fibra óptica em 1200 escolas até Janeiro deste ano

No final de Agosto do ano passado, o Ministério da Educação assinou com a Portugal Telecom (PT) um contrato para a implementação das redes de área local em 1200 escolas públicas dos diferentes níveis de ensino. Na altura, o coordenador do Plano Tecnológico da Educação, João Trocado da Mata, anunciava que as primeiras cem escolas estariam a funcionar em Setembro desse ano e que, no início de 2009, a rede de fibra óptica estaria a disposição de todos os alunos e professores.

Com esta renovação, dizia o responsável do Programa Tecnológico da Educação, os estabelecimentos de ensino passariam a beneficiar de um acesso à internet de 48 Mbps, criando em Portugal a primeira rede de "Nova Geração", capaz de suportar serviços como o VoIP e a transmissão de vídeos.

O projecto de internet de banda larga reafirmado pelo Governo em Setembro de 2008 seria, igualmente, o primeiro passo para equipar as escolas com mais computadores, quadros interactivos e servidores.

Todavia, quase sete meses depois da assinatura do contrato entre o Governo e a PT nada disto aconteceu no Vale do Sousa. Hoje, tal como no passado, a rede de internet é incapaz de responder às exigências de um universo escolar informatizado, cenário que piorou a partir do momento em que os alunos começaram a receber os computadores portáteis no âmbito do programa e-escola.

Na escola EB 2,3 de Nevogilde, por exemplo, o conselho executivo foi mesmo obrigado a bloquear o acesso dos alunos à rede sem fios após a chegada dos portáteis dados pelo Ministério da Educação. "A rede sem fios está bloqueada, porque tornou-se impossível trabalhar. Chegámos a ter 100 computadores ligados ao mesmo tempo a uma rede que tem uma velocidade real de 800 Kbps", justifica o coordenador TIC deste estabelecimento de ensino.

Nesta escola do concelho Lousada os alunos são, portanto, obrigados a usar placas pessoais para navegar na internet com os seus portáteis, mas nem assim os problemas ficam totalmente resolvidos. A R@dioN tem, desde algum tempo, a sua emissão interrompida para o exterior e os testes da disciplina de TIC só são realizados após a rede de internet da escola ser desligada. "Os restantes trabalhos são efectuados sem recurso à internet, porque senão a rede vai abaixo", frisa João Iria, que não sabe quando é que a fibra óptica chegará a esta escola com mais de 850 alunos. "Estava previsto ficar instalada até 31 de Dezembro. Mas até hoje ainda não fomos informados do que quer que seja", sustenta.

Conselhos executivos bloqueiam acesso à rede sem fios

Já a EB 2,3 de Cristelo, em Paredes, foi alvo, no início do ano lectivo, de um levantamento das necessidades tendo em vista a implementação da rede de área local. Porém, aqui, tal como na maioria das escolas do Vale do Sousa, a fibra óptica não passa de uma miragem. "Nunca mais nos disseram nada", refere o coordenador TIC Manuel Lourenço.

Em Cristelo, muitos dos 800 alunos do 2º e 3º ciclo já têm computador portátil, mas ninguém o pode utilizar. "Queríamos que eles os levassem para as aulas, mas a rede não consegue suportar tantas ligações, porque é inferior a 800 Kbps", declara Manuel Lourenço.

E isto numa escola que tem dois acessos distintos à internet: um para a rede sem fios e outro para a rede fixa. "O problema é na rede sem fios. Quando os portáteis dos professores e dos alunos estão ligados torna-se tudo muito complicado e a rede muito lenta", sustenta a mesma fonte.

A solução, defende o coordenador TIC, passa unicamente pela chegada da fibra óptica, mas até lá o cenário poder-se-á agravar com a chegada dos computadores para o 5º e 6º ano.

Noutras escolas da região, a rede de fibra óptica já está à porta mas, sem autorização das entidades competentes, continua sem estar ligada ao servidor central. Assim, os problemas são os mesmos e as soluções idênticas. "Tivemos de alterar a palavra-chave de acesso à rede sem fios, porque não havia largura de banda suficiente. Os alunos têm, agora, obrigatoriamente de ligar os seus portáteis à rede fixa, que só existe nas salas de aula", avança um professor que preferiu manter o anonimato.

"Mesmo ligados à rede fixa, basta alguém fazer o download de um ficheiro para a rede parar", diz ainda.


50% das escolas já têm fibra óptica mas não a utilizam

Um técnico da Portugal Telecom garante que 50 por cento das escolas da região já têm fibra óptica instalada. Porém, avança a mesma fonte, os estabelecimentos de ensino só poderão beneficiar dela no início do próximo ano lectivo.

Tal acontece, porque o contrato celebrado entre a PT e o Ministério da Educação divide a empreitada em duas fases distintas. Primeiro, instala-se a fibra óptica em todas as escolas. Depois, e só quando a fibra óptica chegar a toda a região, monta-se a rede interna e o equipamento.

As escolas das cidades de Paredes e de Penafiel, por exemplo, já têm a fibra óptica instalada, mas a velocidade da sua internet anda muito longe dos 42 Mbps anunciados pelo Governo e muito mais dos 100 Mbps que a tecnologia permite. "Anda na ordem dos 4 Mbps", assegura o técnico da PT.

Pior estão os estabelecimentos de ensino situados longe das centrais da PT. Nestes casos, é o cobre que continua como suporte da rede de internet e, como tal, registam velocidades muito baixas. A EB 2,3 de Vilela, em Paredes, e as escolas de Nevogilde e Lustosa, em Lousada, serão os casos mais problemáticos. Aqui, a velocidade da internet oscilará entre os 400 e os 800 Kbps.

 


Três alunas de Vilela ainda não conseguiram aceder à rede sem fios neste ano lectivo

"Este ano simplesmente não dá"

Patrícia, Sara e Elsa frequentam o 12º ano na Escola Secundária de Vilela, em Paredes, e todas têm um computador portátil. No caso das duas primeiras, adquirido no âmbito do e-escola. No caso da Elsa, pago a expensas próprias.

Todos os dias, as três amigas carregam o portátil de casa para a escola, uma exigência dos professores, sobretudo das disciplinas de Área Tecnológica Integrada e de Organização e Desenvolvimento Desportivo. Mas a máquina é utilizada praticamente só para a realização de trabalhos sem recurso à internet, pois a ligação à rede sem fios da escola é impossível. "O ano passado conseguia ligar-me. Mas este ano simplesmente não dá", lamenta Elsa. Ao lado, Sara corrobora a dificuldade: "Este ano ainda não consegui entrar". Patrícia é das três a mais optimista ao sustentar que "há quem consiga aceder à internet sem fios", mas mesmo ela não deixa de salientar o facto de a internet "ser tão lenta".

Neste contexto, não restou outra alternativa às três alunas de Vilela do que adquirir uma placa de internet própria só possível através do pagamento de uma mensalidade a uma das três operadoras associadas ao projecto e-escola. "Desta forma já consigo navegar", refere Patrícia.

Fernando Coelho, professor na escola de Vilela, admite que o cenário piorou, cerca de "300 por cento", com a chegada dos computadores do e-escola e que hoje é praticamente impossível "abrir uma página de internet através da rede sem fios". "Nem os alunos dos três cursos profissionais e dos dois Cursos de Educação e Formação de jovens na área informática conseguem trabalhar com a rede neste estado", advoga.
"Às 8h30 já esgotamos os mais de 200 IP´s disponíveis na rede. Vamos obrigar os alunos a inscreverem-se na secretaria para ver se conseguimos controlar o acesso à rede da escola", declara o docente.

Tal como noutras escolas da região, também Vilela recebeu a visita dos técnicos da PT e foi alvo do levantamento das respectivas necessidades tendo em vista a instalação da fibra óptica. Todavia, cinco meses depois, esta escola continua a estar no fim de uma linha em cobre que não permite que a capacidade chegue a um Mbps. "A qualidade é péssima. Mas desde Agosto que não ouvimos falar em mais nada", realça Fernando Coelho.

 
 
 
 
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