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Seg 20 Out 14 | .a Edição | Director: |     
   
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  por: Fernanda Pinto  
Conheça o quartel por dentro
Formação e profissionalização são os objectivos dos Bombeiros Voluntários de Paredes

Estão presentes na nossa vida do dia-a-dia sem muitas vezes serem notados. São apontados apenas quando, no decurso do seu trabalho, cometem erros ou realizam um feito considerado heróico. São bombeiros, sobretudo voluntários, e só eles sabem explicar a adrenalina que sentem ao ouvir tocar a sirene, sabendo que há alguém a precisar de ajuda.

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Paredes comemorou este ano 125 anos de existência. No seu percurso muita história, mas desta feita optamos por ouvir algumas estórias e sobretudo conhecer por dentro o quartel desta corporação, as suas mais-valias e necessidades e os homens e mulheres que fazem deste, como muitos, um quartel que nunca dorme.

Um milhão de euros investido em sete anos

A visita guiada foi liderada pelo presidente da direcção, Mário Sousa, conhecido de muitos como comandante Mário. Com ele percorremos o edifício que a corporação, criada em 1884, passou a ocupar há cerca de 25 anos atrás, entretanto já reestruturado para dar resposta às actuais necessidades destes bombeiros. Ao todo acolhe actualmente 100 bombeiros, fora a escola de infantes que já conta com oitenta jovens. Esta corporação tem na sua área de actuação 10 das 24 freguesias do concelho.

Começamos pelo parque de viaturas pesadas, criado em 2004, mesmo ao lado da oficina. Aí, ao lado dos carros de comando e de combate a incêndio estão também três viaturas da Autoridade Nacional de Protecção Civil (APNC), já que neste quartel funciona uma base de apoio logístico (BAL). Aqui é dado apoio às equipas que passam pelo distrito em deslocação, a nível de alojamento, alimentação e combustível. Um acréscimo de responsabilidade já que é o pessoal da casa quem tripula as viaturas de comunicações da ANPC. “Estes veículos saem para ocorrências de maior envergadura. Quem estiver naquele posto de comando tem que ter qualificação suficiente para não bloquear porque o fluxo de informação é muito grande”, disse o comandante destes bombeiros há nove anos, José Morais. É bombeiro há 18 anos e toda a sua vida está ligada ao socorro: trabalha há 14 anos na ANPC, no Porto, e é formador há 12 na Escola Nacional de Bombeiros.

Mais à esquerda está ainda o parque para as viaturas do pessoal, feito com mão-de-obra da casa e material oferecido, em 2005. “Entre 2002 e 2009 foi investido mais de um milhão de euros em veículos e no edifício”, diz o Comandante Mário. “Quem viu isto e quem vê”, acrescenta.

36 mil euros investidos em fatos Nomex

No primeiro nível do edifício principal encontramos o espaço de lazer com bilhar, um plasma, internet 24 horas e máquina de café. Serve para os tempos em que o socorro não é necessário.

Em permanência no quartel estão sempre dois motoristas e dois maqueiros, voluntários, entre que entram às 21h00 e saem às 7h00. Até 15 de Outubro o número sobe para 14 porque há mais elementos de prevenção aos incêndios, explicou o presidente da direcção.

O físico não é esquecido. Logo ao lado têm “o melhor ginásio da cidade”. 24 máquinas de manutenção que desde há três anos estão disponíveis para o pessoal da casa. Ainda ao lado há a arrecadação da BAL e no espaço antes ocupado pelo fosso da oficina existem agora duas salas, uma para a fanfarra, criada em 2002, e outra para os graduados que funciona também como arquivo.

No segundo piso, no corredor que separa as camaratas femininas das masculinas, estão 28 fatos Nomex, usados para aproximação ao fogo. Um investimento de 36 mil euros, feito com recursos próprios como prenda por fazerem 125 anos. São insuficientes, mas já são mais do que muitas corporações têm. Por isso mesmo vão doar 50 capacetes do equipamento a uma associação do Alto Douro.

Ao lado esquerdo os balneários e camaratas masculinas que dão dormida a 10 bombeiros, com escada que liga ao parque de viaturas de incêndio. À direita a camarata feminina, com os respectivos balneários, e sala de formação, ambas as valências construídas no espaço antes ocupado pelo antigo bar.

Parque de viaturas totalmente remodelado

Neste piso e de frente para a rua estão as viaturas de emergência médica. A mais velha é de 2003, explicou o comandante Mário, havendo muitas já de 2009. Ao todo são 10 viaturas, sendo que já tinham uma com o mesmo equipamento que a do INEM recebida no dia de aniversário aquando da atribuição do PEM à corporação. “Já tínhamos ambulâncias melhor preparadas que a do INEM”, corrigiu o comandante, explicando que tinham das piores frotas de ambulâncias do concelho e que agora reverteram para o inverso.

Saindo e entrando no hall principal do edifício, que dá acesso ao piso superior do mesmo, temos acesso a um pouco da história da associação. Aí estão, entre outros elementos, a lâmpada que iluminava a fachada do primeiro edifício da corporação e a primeira bandeira, datada de 1884. Subindo as escadas temos acesso à secretaria, à cozinha, ao salão nobre e ao espaço que costuma ser a área de restauração. Têm uma cozinha industrial que permite preparar um self-service para 100 pessoas.

Aquando da nossa visita tanto essa área como parte do salão nobre estava preparada para receber a coluna de homens que combatia o fogo em Baião e devia dirigir-se a Paredes para tomar banho e descansar. “No ano passado demos aqui 900 dormidas e 3500 refeições. Este ano serão os primeiros a dormir cá”, disse Mário Sousa.

Descemos uma escada íngreme que nos leva de volta ao andar de baixo. Fomos conhecer a Maria que nesse dia tomava conta da central de comando. Segundo José Morais costumam ter mensalmente uma média de 200 a 250 ocorrências, a larga percentagem ligada à emergência médica.
Conhecidas as instalações regressamos ao exterior e junto do parque de viaturas conhecemos as caras, quase todas de jovens voluntários, que nesse dia aguardavam os pedidos de socorro dos paredenses. 

Profissionalização não exclui voluntariado

Em conversa com o comandante da corporação este explicou que o caminho é agora continuar a qualificação dos recursos humanos e requalificação de alguns espaços, sendo que o grosso do investimento está feito, e a profissionalização da primeira intervenção.

Os bombeiros que tem, garante, “são poucos e bons”. “Não interessa, como muitas associações fazem, dizer que temos duzentos bombeiros, porque não passa de um número, quando efectivamente apenas 50 ou 70 cumprem com rigor as suas funções”, adiantou.

Num quartel que nunca dorme “mas vai descansando”, José Morais reitera a importância de profissionalizar as equipas que intervêm em primeiro lugar, mantendo em segunda linha o apoio dos voluntários, sobretudo para garantir o socorro no horário pós-laboral.

“Neste momento temos quatro elementos a sair ao momento, que constituem duas guarnições de saídas de ambulância. A partir do quinto elemento são voluntários”, informou. 

As Equipas de Intervenção Permanente (EIP), cujo protocolo é tripartido entre a Câmara, a Associação Nacional de Protecção Civil e os bombeiros, continuam apenas como intenção por parte do município, mesmo tendo havido repto desta corporação, um ano antes, para a sua constituição, refere. “Há necessidade de ter aqui uma atitude mais pró-activa na área do socorro por parte dos responsáveis. As coisas têm que ser pensadas mais à frente”, desabafa. Caso não haja resposta por parte da autarquia a Associação está já a preparar-se para procurar assumir essa responsabilidade, disse José Morais.

Vidas de bombeiro

Há quase 40 anos que é bombeiro. Fernando Garcês meteu em Agosto os papéis para passar ao quadro de honra. Neste quartel encontrou outra família, mas mais que isso, encontra também a sua própria família. Aqui são também bombeiros alguns irmãos, um deles o segundo comandante da corporação, um sobrinho, um filho e um genro. Também o pai, já falecido, foi soldado da paz nos Bombeiros de Paredes. Aos 65 anos, depois de se ter reformado, faz um pouco de tudo nesta Associação.

Ao seu lado esquerdo, o comandante Mário, actual presidente da direcção dos Bombeiros de Paredes, cargo que ocupa nos últimos oito dos 30 que tem ligados ao socorro. Foi o fundador dos bombeiros de Rebordosa e ocupou durante quatro anos o cargo de presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto, entre outros.
Foram os nossos guias.

Na central de comandos

Na central de comandos, a receber as chamadas de emergência ou incêndio e a dar nota disso ao Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS), estava Maria Nogueira.

No computador à sua frente regista no sistema informático qualquer saída de viaturas para haver sempre uma relação das que têm disponíveis no quartel. Faz também o registo interno de quem sai para fazer o transporte de doentes.

Há oito anos nos bombeiros, é uma dos quatro soldados da paz que vão cumprindo turnos neste posto. Tem 26 anos e o curso de operador de comunicações.

O número de emergências varia de dia para dia, explicou. Aquando da nossa passagem por lá (na segunda-feira) apenas uma viatura tinha saído do quartel, a do INEM para uma pequena emergência médica.

Há sempre tempo para ser voluntário

Sete dias por semana, e algumas vezes 24 sobre 24 horas como era desta vez o caso para alguns, há bombeiros que quase vivem no quartel nesta altura de verão.

Foram também sete as caras que encontramos, algumas regressadas do combate ao incêndio em Baião, e que nos explicaram o que os prende ali.
Vítor Garcês (28 anos e o único do grupo que é funcionário da associação), Bruno Silva (18 anos), Márcia Silva (18 anos), Cristiana Brochado (22 anos), Ana Soares (19 anos), Joseph Nunes (18 anos) e José Moreira (61 anos de idade e 36 nos bombeiros de Paredes) explicaram que nas últimas semanas não existe tempo para descanso, saindo sobretudo para incêndios. Mas o sorriso dos voluntários mantém-se.

Além do sorriso é visível o orgulho de pertencer a esta corporação. “Quando nos comparamos com outras corporações percebemos que estamos bem a nível de equipamentos e organização. Não há corporação melhor”, afirmaram.

São muitas as noites sem dormir, ou aquelas em que pouco descansam, mas vão tendo o apoio dos colegas para se manterem acordados.

Alguns trabalham, outros estudam, mas se há coisa que afirmam é que não se querem afastar dos bombeiros. “Quem arranja tempo numa licenciatura para vir cá, arranja sempre tempo”, enfatizaram.

 

 
 
 
 
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